sexta-feira, 14 de março de 2008

**agora na amarica latinan,pre-colombiana**

6. Etno-história da homossexualidade na América Latina(1)
"A homossexualidade deve ser um desafio e não um tabu para a Ciência, dizia já em 1957 G.A. Silver(2) e não obstante tal sugestão, injustificado complô do silêncio continua a barrar da Academia os estudos sobre "o amor que não ousa dizer o nome" (Oscar Wilde). Já em 1927, B.Malinowski, um dos pais da Antropologia moderna, chamava a atenção para a importância de estudar temas da sexualidade humana tirando "a folha de parreira que cobre o sexo"(3) . Não obstante, neste final do segundo milênio de nossa civilização, o estudo do amor e erotismo entre pessoas do mesmo gênero ou continua proibido, ou é considerado tema marginal e de menor importância no meio univercitário. Se ponderarmos que os gays(4) e lésbicas representam por volta de 10% da população dos países ocidentais(5) , concluiremos que somente o preconceito e discriminação poderiam explicar o desprezo pelo conhecimento de tão significativo contigente demográfico. Em seu recente livro sobre as unões entre homoxessuais na Europa pré-moderna, J.Boswell adverte-nos quão ilógica e cruel tem sido a nossa cultura, notadamente após o século XIV, ao eleger a homossexualidade como o maior e mais horroroso de todos os tabus sexuais. O "pecado nefando", isto é, aquele cujo nome não pode ser mencionado - e muito menos praticado! - foi considerado pela moral judaico-cristã como mais grave do que os mais hediondos crimes anti-sociais, como por exemplo, o matricídio, a violência sexual contra crianças, o canibalismo, o genocídio e até deicídio - todos pecados-crimes mencionáveis, enquanto só o abominável pecado nefando de sodomia foi rotulado e tratado como nefandum(6) .É pois com o objetivo de quebrar o silêncio e tabu que ainda cercam o amor entre pessoas do mesmo sexo em nosso continente, que faz-se importante resgatar a história e antropologia da homossexualidade na America Latina. Reunindo informações bibliográficas de difícil acesso, geralmente inexistentes nos compêdios tradicionais, minha intenção, além de esboçar um quadro geral de homoerotimo em diferentes áreas culturais desta parte do orbe, é estimular outros pesquisadores nativos a aprofundar as pista aqui apresentadas, não apenas visando o deleiteintelectual, diletante ou fetichista, mas tendo em vista o reconhecimento dos direitos de cidadania deste buliçoso segmento social cujos direitos humanos são negados e vilipendiados na maior parte dos países latino-americanos, inclusive dentro das próprias universidades. Para facilitar esta análise, dividimos este trabalho em três partes, a saber: a homossexualidade na América pré-Colombiana; a repressão aos sodomitas na América Latina Colonial e a situação dos gays e lésbicas latino-americanos hoje.Portanto, antecipando algumas das conclusões desta pesquisa, valeria destacar que o estudo da etno-história do homoerotismo na América Latina reveste-se de particular interesse para diferentes ramos da Historiografia, notadamente para os estudos das mentalidades, do quotidiano e da sexualidade. Os dados aqui coligidos permitem avançar a discussão sobre a própria teoria da Homossexalidade(7), ratificando de um lado a universalidade temporal e especial das práticas homófilas, desmisficando assim a acusação vulgar de que teriam sido os europeus os introdutores do "vício filosófico" (Voltaire) no Novo Mundo. Outra questão sugerida pelos dados aqui apresentados remete-nos a um dos impasses teóricos mais candentes e ainda não resolvidos pelos estudiosos deste tema: até que ponto o conceito de homossexulidade pode ser usado com propriedade heurística para descrever e interpretar as relaç·es unissexuais do mundo extra-europeu? Deixarei ao leitor, no final deste trabalho, retirar suas próprias conclusões quanto a esta polêmica que coloca de um lado os essencialistas e do outro, os construtivistas sociais(8).
A homossexualidade na América pré- colombiana"Ultra Oequinotialem no peccari." (Ditado Ibérico do Século XV)Para se estudar as práticas homossexuais no Novo Mundo quando da chegada dos conquistadores europeus, dispomos basicamente de três fontes: Esculturas e Cerâmicas representando cenas homoeróticas;mitos conservados na memória oral dos nativos e registrados nos manuscritos tradicionais; relatos dos primeiros cronistas que entraram em contacto com os amerídios e finalmente, estátuas e gravuras alusivas ao homoerotismo(9).Conforme relata Gonzalo Fernandez de Oviedo, em sua História General y Natural de las Indias, (1535) o gosto pelo vício nefando se espalhava não só por toda área circum-caribe, mas também ao longo da Tierra Firme, atual costa da Venezuela e Colômbia, "onde muitos índios e índias eram sodomitas." Observou escandalizado que "em algumas partes destas Indias, traziam como jóia a um homem por sobre o outro, naquele diabólico e nefando ato de Sodoma, feitos de ouro. Eu vi uma destas jóias do diabo que pesava vinte pesos de ouro, muito bem lavrado, que se tomou no Porto de Santa Marta na costa de Tierra Firme,no ano de 1514... Assim, quem taos jóias valoriza e compõe sua pessoa, certamente usará de tal maldade na terra onde trazem tais erros, ou se deve teer por coisa usada, ordinária e comum"(10).Também Francisco Lopez de Gomara (1552) refere-se à presença de ídolos homossexuais entre os nativos mexicanos de Sant Anton: "Acharam entre umas árvores um idolozinho de ouro e muitos de barro, dois homens cavalgando um sobre o outro à moda de Sodoma"(11).Por ocasião da descoberta da Península de Yucatan, encontraram os espanhóis outra comprovação escultórica de que os Maias prestavam culto ao amor unissexual: "Tenian muchos idolos de barro, unos como con caras de demonios y otros como de mujeres y otros de malas figuras, de manera que al parecer, estaban haciendo sodomias los unos indios com los otros"(12).Também na América do Sul, na região dos Andes, foram encontradas provas arqueológicas confirmando a prática do homoerotismo antes da chegada dos europeus. Há notícia de que os espanhóis teriam igualmente encontrado e derretido no Peru estátuas em ouro representando cópula anal entre dois homens(13). Preservaram-se contudo até nossos dias diversas peças de cerâmica, reservatórios de água ou moringas, onde exímios artistas pré-incaicos esculpiram na argila, cenas explícitas de homoerotismo. Na célebre coleção de cerâmica erótica Mochica coletada pela Família Larco, com data anterior a 1.000 A.D., 3% das peças retratam realisticamente cenas de penetração per annum(14).Além dos ídolos mexicanos e das cerâmicas peruanas, outra importante fonte pré-colombiana para se conhecer a prática da homossexualidade no Novo Mundo é a coleção dos célebres Códices Maias - como El Chilan Balam, El Popol Buj (Livro del Consejo) e as Profecias Maias - obras pictográfico-hieroglíficas que tratam da história mitológica e costumes desta civilização. Através destes manuscritos, notadamente do Códice Vaticano nº3738, constata-se que no panteão asteca, ocupava lugar proeminente a deusa Xochiquetzal, divindade hermafrodita, protetora do amor e da sexualidaade não procriativa, a qual, quando representada como homem, tornava-se o deus Xochipilli, padroeiro da sexualidade masculina, controlador das doenças sexualmente transmissíveis(15). Segundo estes Códices, os Maias dividiam a história mitológica do mundo em diferentes períodos, sedo a Quarta Idade, a que precede o período anterior à chegada dos Europeus, também chamada de Idade Negra ou Idade das Flores, tinha como patrona Xochiquetzal, símbolo do sexo e da sensualidade. "Esta es la edad em que los vícios, la molicie, el abandono de las costumbres austeras se instalan entre los hombres. Es la edad en que se olvidan las virtudes viriles de los guerreros y de los magistrados, se ensalza la vida blanda, facil y pervertida. Es la sublimación de la Danza de Las Flores, de las Grinaldas y del afeminamiento. Es el imperio de los mostradores del dorso, segun el Codice Chilan Balam(16).São contudo os relatos dos primeiros cronistas contemporâneos às conquistas do Novo Mundo, a fonte principal comprobatória da existência, grande extensão e variedade das práticas homossexuais na América Latina.Já Fernan Cortez, na sua primeira Carta de Relación, enviada ao Imperador Carlos V em 1519, dizia: "Soubemos e fomos informados com certeza que todos [os índios] de Vera Cruz sãon sodomitas e usam daquele abominavel pecado(17), acrescentando Lopez de Gomarra que os nativos do Rio Panuco e adjacências eram " grandissimos putos "(18), usando o mesmo termo corrente desde a Idade Média em toda Península Ibérica, injustamente associando os homossexuais às prostitutas.Tarefa extremamente difícil é avaliar o grau de objetividade ou subjetividade destas informações, pois nalguns casos, parece que os cronistas tendiam a exagerar os hábitos pecaminosos dos selvagens, exatamente com o escopo de justificar a conquista, redução ou genocídio dos mesmos. Gomarra e outros cronistas associam a sodomia à impiedade:" como não conhecem o verdadeiro Deus e Senhor, estão em grandíssimos pecados de idolatria, sacrifícios de homens vivos, comida de carne humana, fala com o diabo , sodomias, etc(19).Quanto aos astecas, nota-se clara contradição entre os primeiros observadores. Diaz del Castillo aponta-os como grandes amantes do homoerotismo, enquanto o franciscano Frei Bernardino de Sahagun exime-os desta abominação, ambos concordando, no entretanto, quanto à afeminação e travestismo como elementos estruturais da prática homossexual masculina: "Eram todos los demás dellos sométicos, en especial los que viviam en las costas y tierra caliente, en tanta manera que andaban vestidos en hábito de mujeres, muchachos a ganar en el diabolico y abominable vicio"(20). O citado missionário franciscano assim descreve os costumes destes nativo na sua História General de las cosas de Nueva España: "O somético paciente é abominável, nefando e detestável , digno de desprezo e do riso das gentes; o fedor e fealdade de seu pecado nefando não se pode sofrer, pelo nojo que causa aos homens. Em tudo se mostra mulheril e efeminado, no andar ou falar , e por tudo isso merece ser queimado"(21). Também Frei Barlomé da las Casas defende os nativos que missinou de serem muito afeitos às nefandices, ressaltando os especialistas nas civilizações maias e astecas a contradição notada entre uma mitologia extremamente dionisíaca, valorativa inclusive do hermaforditismo e da homossexualidade, ao lado de um prática moral bastante repressiva, do tipo apolíneo, prevendo até a pena de morte para certos casos de homossexualismo(22). "Aceita ou rechaçada, honrada ou severamente castigada, segundo a nação onde era praticada, a homossexualidade estava presente do Estreito de Berhing ao de Magalhães", conclui com maestria Antonio Raquena, o primeiro estudioso das "anormalidades sexuales de los aborigenes americanos"(23).Inúmeros são os relatos de cronistas, viajantes e missionários descrevendo a presença de índios homossexuais e travestis entre as tribos e nações da atual América do Norte, onde os famosos berdaches chegaram a ser retratados em pitorescas gravuras do século XVII(24). Praticada pelos maias, astecas e caribes, a homosssexualiade também teve muitos adeptos em diferentes civilizações dos antigos imperios andinos da Colômbia ao Chile, incluindo os Chavin, Tiahuanaco, Nazca, Chimu, notadamente os Incas e Chibchas. Em sua Crônica del Peru, Cieza de Leon observou que "para os ter o demônio mais presos nas cadeias de sua perdição, nos oráculos e adoratórios onde se falava com o ídolo e dava as respostas, fazia entender que convinha para seu serviço, que alguns moços desde pequeninos estivssem nos templos para que a seu tempo, cuando fossem feitos os sacrifícios e festas solenes, os senhores e outros principais, usassem com eles no maldito pecado de sodomia. Segundo o Padre Domingo de Santo Tomás, geralmente entre os serranos e Yungas, em cada templo ou adoratório principal, têm um homem ou mais, segundo o ídolo, os quais andam vestidos como mulheres e um suas maneiras e trages e tudo o máis, arremedam a elas. Com estes, quase por via da santidade e da religião, têm nas festas e dias principais seu ajuntamento carnal e torpe, especialmente os principais senhores. Eles davam a entender que tal vício era uma espécie de santidade e religião"(25) A associação entre homosexualidade e xamanismo e outras manifestaões religiosas é tema fartamente documentado em incontáveis culturas, em todos continentes e ao longo de toda história humana. A própria suposta condenção do Antigo Testamento ao homoerotismo masculino, segundo os exegetas modernos, deve-se muito mais à execração da prostituição viril praticada nos templos, do que à condenção per se da unissexualidade(26).Também entre os aborígenes do Brasil e das partes mais meridionais da América do Sul abundam evidências de que os amores homosexuais faziam parte das alternativas eróticas socialmente aceitáveis antes da chegada dos conquistadores portugueses. Entre os Tupinambá, que ocupavam a maior parte da costa brasileira, os índios gays eram chamados de tibira, e as lésbicas de çacoaimbeguira. Eis como são descritos no Tratado Descritivo do Brasil em 1587: "Não contentes em andarem tão encarniçados na luxúria naturalmente cometida, são muito afeiçoadas ao pecado nefando, entre os quais se não tem por afronta. E o que se serve de macho se tem por valente e contam esta bestalidade por proeza. E nas suas aldeias pelo sertão há alguns que têm tenda pública a quantos os querem como mulheres públicas"(27). Eis como outro cronista, Gandavo, já em 1576 descrevia a conduta das mulheres-machos: "Algumas índias há que não conhecem homem algum de nenhuma qualidade, nem o consentirão ainda que por isso as matem. Estas deixam todo o exercício de mulheres e imitam os homens e seguem seus ofícios como se não fossem fêmeas. Trazem os cabelos cortados da mesma maneira que os machos e vão à guerra com seus arcos e flechas e à caça, perseverando sempre na companhia dos homens. E cada uma tem mulher que a serve, com quem diz que é casada. E assim se comunicam e conversam como marido e mulher"(28). Provavelmente foram estas índias ultra masculinizadas, as çacoaimbeguira que ao serem vistas lutando contra os espanhois no Rio Marañon, foram confundidas com as legendárias Amazonas, mito que propagou-se por todo o continente americano, muito embora carecendo de qualquer evidência confiável quanto à sua veracidade(29).Entre os nativos Guaicuru, pertencentes à grande nação Guarani, residentes nas margens do Rio Paraguai, ainda nos finais do Século XVIII, eram encontrados índios homosexuais que além de travestirem-se, eram totalmente identificados com o estilo de vida do sexo oposto: "Entre os Guaicurus e Xamicos, há alguns homens a que estimam e são estimados, a que chamam cudinhos, os quais lhes servem como mulheres, principalmente em suas longas digressões. Estes cudinhos ou nefandos demônios, vestem-se e se enfeitam como mulheres, falam como elas, fazem só os mesmos trabalhos que elas fazem, trazem jalatas, urinam agaxados, têm marido que zelam muito e têm constantemente nos braços, prezam muito que os homens os namorem e uma vez cada mês, afetam o ridículo fingimento de se suporem menstruados, não comendo como as mulheres naquela crise, nem peixe nem carne, mas sim de algum fruto e palmito, indo todos os dias, como elas praticam, ao rio, com uma cuia para se lavarem"(30)À guisa de conclusão desta primeira parte, com base nos principais estudos sobre homossexualidade na América Latina e Caribe, assim como em monografias antropológicas e históricas consagradas à diferentes culturas desta região, enumero a seguir a lista das etnias indígenas, do passado e do presente, sobre as quais há evidência arqueológica, histórica, etnográfica ou linguística, comprobatória da prática do homossexualismo(31).- México: Albardaos, Cipacingo, Itza, Jaguaces, Panuco, Sinaloa, Sonora, Tabasco, Tahus, Tlasca, Yucatecas, Maias e Astecas.- Panamá: Dairen, Panamá.- Colombia: Bogotá, Cayos, Chinatos, Chitarero, Guaira, Gauticos, Laches, Lile, Kagaba, Kogi, Mosca, Matilones, Urabaes, Zamba.- Peru: Camana, Cañares, Carauli, Chibchas, Chinchas, Chincamas, Conchuco, Guanuco, Huayllas, Manta, Peru, Picta, Quellaca, Tarama, Tumebamba e os nativos de Puerto Viejo, Isla de Plata, Isla de Puna, Santa Helena, San Miguel, Serranos.- Venezuela: Achaguas, Bobure, Capechos, Caribana, Caribes, Chiricoa, Ciparicote, Coquibacoa, Salivas, Timotes, Warao, Ypuies, Itatos.- Bolivia: Chiguano, Wachipaeri.- Chili: Araucanos, Mapuche, Pataões.- Brasil: Boróro, Tupinambá, Guatos, Panaré, Wai-Wai, Xavante, Trumai, Tubira, Guaicuru, Xamico, Kainagaig, Nambiquara, Tenetehara, Yanomani, Mehinaku, Camaurá, Cubeo, Guaiaquil.

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